Cântigo Negro Digital

Já publiquei aqui no blog (na categoria literatura) o poema que tanto amo “Cântico Negro” do José Régio. Me identifico muito com ele! Sabendo disso, uma amiga me mandou este vídeo. Achei o máximo, porque além de adorar o poema, uma mulher solitária o recita,  com uma trilha sonora clássica ao fundo. Sozinha, caminhando em uma cidade em ruínas… Ficou com cara de trailer de vídeo  game (que eu também gosto muito…). Achei a combinação perfeita, tecnologia, mundo digital e poesia para a alma!

Published in: on 29 de junho de 2010 at 2:47 am  Deixe um comentário  
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Viver Não dói – Carlos Drummond de Andrade

Uma amiga me mostrou esse poema do querido Drummond que eu não conhecia e foi amor a primeira vista. É exatamente assim que me sinto, inclusive no momento em que postei estava pensando muito sobre tudo o que está neste poema:

Viver Não dói

Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram.
Por que sofremos tanto por amor?
 

 

O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.
Sofremos por quê?

Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projeções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos
de ter conhecido ao lado do nosso amor
e não conhecemos,
por todos os filhos que
gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados,
pela eternidade.

Sofremos não porque
nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe
é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que
poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada
em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós,
impedindo assim que mil aventuras
nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e
nunca chegamos a experimentar.
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!

A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade..

A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional.

 

 

Published in: on 19 de março de 2010 at 2:36 am  Deixe um comentário  
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